De escravo a patrão. No século XXI o Brasil ainda não mudou.

Sou uma pessoa que acredita em muitos ideais considerados liberais, como,por exemplo, a flexibilização dos contratos de trabalho e a liberdade de negociação entre patrões e empregados e de associação, sem intervenção do estado (isto é, sindicatos devem operar como num mercado e não devem ser mantido a custa de tributos, mas apenas de contribuições voluntárias).

Por outro lado, existem problemas brasileiros, culturais que se refletem na economia e no aprofundamento das injustiças e da desigualdade, e não ajudam nada a ninguém no final das contas.

Exemplo?

Hoje, nos salões de beleza, há um movimento para que todos os profissionais – cabelereiros, esteticistas, manicures e pedicures, enfim, que trabalham na área fim – não tenham mais vínculo empregatício, e sim com contratos de prestadores de serviço, em modelo pessoa jurídica. Não podem ser autônomos para não caracterizar vínculo, mas sim, ter CNPJ. O que eu tenho testemunhado é uma pressão violenta sobre eles, ao menos no meu bairro, para que peçam demissão, ou mesmo que “façam acordo”, isto é, devolvam a multa de 40% sobre o valor do FGTS ao empregador, que faria o favor de demiti-los para que possam sacar “seus direitos”, e então os ex-empregados poderiam ser recontratados como pessoa jurídica. Só que cada um teria de arcar com os custos de abrir essa empresa individual, e não receberiam mais nenhum benefício como 13º, férias remuneradas, INSS, FGTS, enfim, nada.  Para os salões, isso significa uma redução de custo enorme, já que os encargos custam ao empregador praticamente um segundo salário. Para o empregado, especialmente desse setor, não há absolutamente nenhuma vantagem.

manicures

Não há vantagem por que eles já trabalham dividindo com o empregador parte da sua renda e do custo, por exemplo, se você paga R$ 30,00 em um serviço de pedicure/manicure num salão, 50% fica para a manicure, 50% para o salão, sendo que todo o material pertence a manicure, isto é, é ela quem tem de comprar o próprio material de trabalho, o salão oferecendo essencialmente o local e o serviço de agendamento, o qual ela não controla, assim, o próprio salão pode “fazer a comissão” da funcionária, direcionando a ela mais ou menos clientes, por exemplo, ou alterando suas folgas para dias de melhor ou maior fluxo de clientes. Da mesma maneira elas tem uma espécie de cota mensal a bater, de maneira que o salão não tem exatamente um prejuízo, no 50%, e raramente um salão paga o piso, pois esse é debitado do total composto do salário mínimo somado a comissões, assim, se deu o passou do piso, ótimo, se deu só o piso, ótimo também, mas o compromisso é só com o mínimo.

Nesse tipo de negociação, acredito eu, o salão poderia fazer algo que não seria ruim para os funcionários, dada a economia que está fazendo: ao invés de reter 50%, poderia reter 30%. Sim, seu faturamento cairia, mas seu custo caiu bem mais, assim como riscos legais, entre outras coisas. De qualquer maneira, nenhum salão reduziu o preço dos serviços, apesar de ter reduzido seus custos, e o movimento não aumentou nos salões do bairro, nem a competição entre eles, o que significa que os patrões, de maneira geral, preferem manter sua margem de lucro, reduzindo apenas o gasto com folha de pagamento, e não pensando em formas de melhorar a sua produção e seus serviços, e sem oferecer incentivos aos seus funcionários/servidores, e nem benefícios diferenciais aos consumidores.

É uma relação exploratória e hostil. E que não precisava ser dessa maneira. O sujeito pensa de maneira polar, de escravo quer ser senhor, em nenhum momento pensa apenas em ser uma pessoa, um empreendedor justo consigo e com o outro. Nossas ambições, como sociedade, são pequenas. Somos um grande país pequeno.

O que mais me espanta, é que alguns desses donos, são profissionais de beleza, que um dia estiveram na mesma posição dos seus empregados, e que, uma vez na posição de empresários, “de patrões”, repetem o padrão exploratório e pouco eficiente, como se isso fosse uma evolução na cadeia alimentar, de escravo tivesse subido a senhor. Nós temos uma psique escravocrata, é a nossa dinâmica social e é mais profundo do que relações raciais, é algo gravado na nossa alma, na relação do sujeito com ele mesmo, e as repercussões disso são horrendas.

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Talvez, se compreendermos e aceitarmos essa herança, essa mentalidade, possamos olhar para ela sem culpa, mas com responsabilidade, e fazer algo de produtivo a esse respeito.

Até esse momento, mesmo com os contratos de trabalho não flexibilizados, as relações sociais nesse país, e as econômicas, continuam buscando formas de dar vazão a um ímpeto que me parece mais do que simplesmente explorador ( que não é deformação exclusiva capitalista), mas dominador (“Não quer? Pode ir para a rua, como você, tem um monte!”, vindo de quem um dia ouviu essas mesmas palavras! Essa é uma deformação humana).

Qual é a solução? Um país inteiro em terapia? Explodir tudo, tabula rasa, começar do zero, devolver para os índios? Partir para reeducação e engenharia social? Eu gostaria de não me espantar ainda com isso.

 

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2 thoughts on “De escravo a patrão. No século XXI o Brasil ainda não mudou.

  1. How about some initiative on the part of the worker to rise into their own independence. Oh yeah, because people like you couldn’t feed on their demise and try to be so sincere in trying to help. Ridiculous.

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    • They should and I advised them to do so, however I was amazed at how often one really ends up with an exploitative attitude, instead of simply being fair, or at least trying to. It is the human aspect that is saddest. Even when you suggest organization, in my country, it ends up in cooptation, perhaps because of lack of education or herd mentality. It is not chastising a class for exploiting others, but rather wondering why people don´t break with their own internal chains and mentality. Right now, I and a group of co-workers have been breaking our backs organizing elections in our own research facility, to change the management and try to improve it. People are resistant to change, even when they are in a bad situation, they are often afraid of change. Weird and at the same time, so human.

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