Tudo bem

“Tudo bem, o cara tem um nick esquisito. Mas ele gosta de contos de terror, rock progressivo… tem a ver, né? Sei lá. Eu também gosto dessas coisas, mas não fico me autodenominando “vampirella” online. Ah… não tenho muito a perder, tenho? Estou sozinha mesmo… aquele crápula me largou. Casou. Mando um foda-se para tudo e ‘tou mais é querendo conhecer gente nova. Pode ser legal.”

Se eu pudesse voltar atrás eu voltava. Juro! De pés juntinhos! Pensar desse jeito me fez conhecer … aquela coisa…

faileddate

A gente vinha trocando emails em grupos do yahoo. Negócio legal: um bando de gente com interesses similares com um espaço onde trocar informações, idéias, ou simplesmente bater um papo sem ser em tempo real. Óbvio que surgem pessoas com quem temos mais afinidades do que com outras. É como na vida real, no mundo de carne e osso. Pode parecer ingenuidade minha, mas eu nunca fiquei pensando se as outras pessoas eram realmente elas no que escrevem. Eu não minto na Internet. Não há razão para isso. Sinceramente. Não é que eu esteja satisfeita com o que sou, mas apenas não consigo ser diferente. Daí que acabo partindo do princípio, sei o quanto posso estar sendo tola, de que os outros são tão sinceros quanto eu. Mas também não sei se sou tão sincera assim… é mais fácil ser eu sem dar a cara à tapa. Não sei mais nada. Mas isso nem interessa tanto, interessa?

Entrei no Bar mais ou menos às 9:15. Eu e Marcos costumávamos ir lá de vez em quando. Nem falei isso para a Coisa. Ambiente familiar, onde meu rosto é mais ou menos conhecido, me fazia sentir mais segura. Todavia era estranho ir lá com outra pessoa. Pareço ser moderninha, gostar de novidades, não ligar muito para as coisas, mas a verdade é que eu sou uma conservadora incorrigível, uma criatura apegada aos meus hábitos. E pessoas podem se tornar um hábito na vida da gente. Se habituar a gostar de alguém, a pensar na vida com alguém. Se esse alguém some, fica tudo mais vazio. Nossa, como isso está ficando cliché.

Mas bem, voltando ao meu triste relato. Entrei e vi sentado numa mesa logo à esquerda próximo do balcão a Coisa. Um mal gosto miserável para se vestir, e olha que eu não sou nenhuma aficcionada por moda, não! Era um tal de calça de sarja com camisa de moleton e tênis all star, em que nada parecia cair bem com nada, nem cor, nem textura, nem, forma, e nem ele. Passei da roupa ao que a enchia. O cabelo rareando, cara redonda com olhos pequenos e mal colocados, uma boca cuja forma era difícil discernir pois ele nunca fixava uma expressão por mais de dois segundos. Não me pergunte como eu consegui observar isso tudo no curso de uns dois  minutos: mulher é assim mesmo.

Tudo bem, pensei, calma, não deve ser tão ruim assim…

A Coisa levantou e antes que eu pudesse dizer algo, disse um “oi” e me lascou um beijo na boca. Meio de língüa, meio sem nada. Absolutamente nojento. Passei da adolescência há tempo bastante para achar esse troço de trocar baba com estranhos algo nojento e no mínimo anti-higiênico. É preciso um pouco mais de intimidade, um bom papo, uma sensação maior de intimidade… aí deixamos de ser estranhos um para o outro… rola um clima… o beijo deixa de ser troca de saliva para ser efetivamente um ósculo, beijo propriamente dito.

Me arrependi amargamente de ter aceitado aquele encontro. Fazia mentalmente os cálculos de quanto tempo eu deveria ficar ali antes de arrumar uma desculpa e sumir, pensava também na desculpa, afinal era sexta-feira e eu não trabalho no sábado. Confesso que fiquei um pouco amedrontada, lembrei dos noticiários policiais, de mulheres estupradas, seviciadas e largadas em um terreno baldio qualquer. E aquele homem me assustava. Ao mesmo tempo crescia a minha repulsa por ele e com ela a minha raiva.

Era difícil para mim prestar atenção no que a Coisa falava. A voz. Alta. Por conseguinte tão desagradável que ao invés de palavras eu ouvia apenas ruídos. Tentava focalizar a minha atenção na conversa, afinal ele não era tão desagradável assim online. Mas era difícil.

chinelodopalmeiras

Continuei com a pantomima. Dei a ele um chaveiro que era uma guitarrinha muito bonitinha, e eis que a criatura começa a fazer uma festa danada, em alto e bom som. Eu me senti o centro das atenções, mas não de uma maneira boa. Eu não estava na escola sendo agraciada com um prêmio por ganhar as olimpíadas de matemática. Eu estava num bar com um homem terrívelmente irritante. Mas ele não fez apenas falar alto, ele quis trocar de chaveiro logo ali,  talvez para me mostrar apreço, sei lá! Sei é que ele começou a puxar um cordão verde e branco, imundo, de dentro do bolso dele. Era corda e penduricalho que não acabava mais e um molhe enorme de chaves.

“Que corda é essa?!” eu perguntei.

“Hehehe, é meu chaveiro do ‘parmêra’ ”, ele falou  visívelmente orgulhoso.

Quase morri, mas passei por esta triste etapa e parecia que a Coisa tinha se acalmado e adotado um comportamento mais próximo do agradável.

De repente vejo-o rindo para mim, com uma expressão entre sem graça e malicioso, e percebo que ele está falando alguma coisa sobre a música ambiente: Mandy, Barry Manilow. Ele fala alto para todos ouvirem o quanto a música é ruim, e não satisfeito, imita uma metralhadora atirando nos alto falantes… com sonoplastia e tudo. Quis me enfiar num buraco, colocar um saco plástico na cabeça, qualquer coisa que me poupasse o vexame.

airguitar

Não sei se fui rude, mas eu consegui fazer o tormento durar apenas duas horas e meia, e nem marquei novo encontro.

Mas isso não o impediu de ligar para mim todos os dias, dizendo que me amava, que horas ele chegou no trabalho, que horas saiu, quantas vezes foi ao banheiro naquele dia, que pensava em mim à toda hora, enfim, ele estava se comportando como se fosse um namorado chato. Tentava marcar outros encontros e eu delicadamente desconversava.

Um dia não agüentei, praticamente o mandei catar coquinho na praia… sozinho de madrugada e num lugar perigoso. Sutileza não tinha adiantado nada, talvez a grosseria resolvesse. Deu um jeito, a Coisa se acalmou, mas não desistiu.

Ainda freqüenta os mesmos grupos que eu, e se eu deixo escorregar qualquer expressão similar a algo remotamente carinhoso, a Coisa volta ao ataque, com outras estratégias para o mesmo objetivo: me comer. Grudar em alguém. Encher o saco. Se sentir menos merda…

Sabe que eu já tentei compreendê-lo? Mesmo! Por cinco minutos. Desisti rapidinho depois do sexto telefonema num dia só.

Confesso ainda ter um pouco de receio de encontrá-lo por aí, acidentalmente. Não consigo esquecer as manchetes sangrentas de jornais populares,  nem dos filmes americanos de assassinos em série. Tenho um certo medo.

De lá para cá, eu conheci outras pessoas, me diverti, amarguei uma pequena e irritantemente constante dor de cotovelo. Fiquei mais cuidadosa com os encontros de internet.  Eu acho, pois anda vira eu faço cada coisa estúpida, que eu mesma me surpreendo.

Inclusive tem um carinha numa lista, que…

* Dedicada a minha amiga Cauks que me sugeriu o tema. É um texto de uns 15 anos atrás!
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