A queda do Gigante da Gamboa

Os meninos da escola militar iriam se roer de inveja dele. Se lançou num bonde logo depois da aula, trocou de roupa numa viela, e chegou na Gamboa. Como podia passar desapercebido naquele lugar? Seu rostinho era branco e quase angelical, comparado a multidão colorida, mulatos de todos os matizes, negros de todos os portes, uns brancarrões pobres de doer. Aquela era a canalha, como na comuna de Paris.

Um bonde tentava passar pela barricada, e a multidão se postou na frente. Ele ficou empolgado com a visão daqueles homens fortes, muitos deles operários da estiva, balançando o bonde. Se uniu, meninote taludo, ao grupo, e finalmente viraram o bonde. O motorneiro saltou pela portinhola antes do baque fatal e o condutor já tinha há muito se escafedido.

Àquela altura ninguém tinha mais noção por quê estavam lutando. Diziam que era pela obrigatoriedade da vacina, mas há muito não se falava mais nisso.

Na verdade era simplesmente uma explosão, uma vontade louca de revidar. A empregada deles, morava num cortiço e foi expulsa. Cada filho foi para um canto, e assim que puderam acharam um muquiço no morro da providência. Ia todos os dias para a casa deles no Cosme Velho, numa viagem longa. Tão longa quanto a dele, quando voltava para casa nos finais de semana, vindo da casa da Tia Glória na tijuca.

Viu a mulata de meia idade resmungar pelos cantos da casa. Lágrimas nos olhos, uma trouxa nos ombros, pedindo guarida para ela e para o caçula. A mãe dele acedeu, mas que fosse breve.

Gostava da Maria Guiné. Filha de uma escrava da guiné, ela dizia, com um feitor. Nasceu livre, mas não viu a mãe forra.

A malta do seu Doutor Oswaldo Cruz entrava a pulso nos lugares para limpar, desinfetar, espetar a gente com agulhas nojentas. Jogavam fora as roupas mais velhas, compravam os ratos. E ainda tinha o Pereira Passos, que nada podia ver de pé que ordenava “bota abaixo!”. Assim ela perdeu o pouco que tinha.

E aí começou. Os jornais berravam contra as autoridades sanitárias, contavam horrores das vacinas.

Maria dizia que era aplicada nas partes íntimas e que não tomaria aquilo de jeito nenhum. Mas como ela sabia disso se era analfabeta? Pois tem sempre um que lê e escreve mal, para ler as palavras rebuscadas do Paíz, do Jornal do Commercio, do Correio da Manhã. E também o que não se entende, se inventa. Isso quem havia lhe explicado era a ama da casa da sua avó, negra velha e esperta como só.

Correu a notícia de que a Gamboa estava inflamada, e correu para lá, para testemunhar, para ver as coisas acontecendo.

Quando deu por si, arrancava as pedras das calçadas e atirava nos policiais, com pontaria certeira de quem era o terror dos passarinhos do bairro. Ele era o Preto Prata, forte como um touro bravo; na sua fantasia de moleque, já não era mais o garboso tenente por quem as moças de bem se derretiam, era o capoeira, com camisa de seda, navalha no bolso, e um cigarro de palha pendurado no canto da boca. Ele era livre da própria classe social, em doce promiscuidade com a canalha.

Quebrou uma vidraça com um porrete arrancado das mãos de um bombeiro, depois se atirou sobre um policial a pauladas, junto com outro grupo de garotos.

Liberdade! Queria gritar, e efetivamente gritava.

Foi então que viu: um negro que parecia ter uns dois metros de altura, que parecia ter músculos até nas pálpebras. Seria ele o tal Preto Prata? Nunca saberia ao certo. Parou para observar o gigante.

Grossas gotas de suor rolavam pela fronte do negro, que arreganhava um sorriso rosnado, com dentes faltando, e os que tinha, os tinha muito brancos. A camisa esfarrapada, a calça larga. Arrancou um paralelepípedo do meio fio, e arremessou contra o carro dos bombeiros. Com um grito pulou no meio de um grupo de policiais, e largava cachações por todos os lados, como que possuído por algo que o fazia ainda maior. Era uma força e uma ira animal, e que se manifestava numa truculência feroz, tenaz, e aparentemente indestrutível.

Até que o primeiro tiro varou-lhe o braço. E depois outro a coxa. Um outro passou de raspão no pescoço.

O garoto sentiu algo queimar-lhe a cintura: era uma bala que o pegara de raspão. Se escondeu na beira de uma viela, a ladeira lhe colocando mais para fora da mira tresloucada dos policiais militares. E pode ver o negro estancar, olhar para o alto, o branco amarelado dos olhos ressecados, e um tanto alucinado. O homem ainda avançou sobre os milicianos, e fez muitos estragos. Até que caiu, uma bala no peito. Os soldados o crivaram de balas, o desfiguraram.

Nunca havia visto alguém ser executado antes. O gigante morreu mas machucou muita gente antes, alguns certamente ficariam aleijados, e pelo menos um morreu. Mas era quase nada frente a derrocada do gigante negro.

Precisava sair dali. A coisa estava piorando para o lado dos revoltosos. Correu sem ver para onde, para cima e para baixo até pular pelo muro de uma casa e de muro em muro, quintal em quintal, conseguiu sair dali. Chegou à viela onde havia trocado de roupa, e se meteu no uniforme. Suado, sujo, com sangue a empapar-lhe a camisa por baixo do casaco.

Teria muito o que apanhar em casa, muita palmatória para agüentar.

E ele ainda teria de ir para o colégio no dia seguinte. Tia Glória iria contar tudo para a mãe dele. Daria graças a Deus se ela não lhe esfregasse sal na ferida.

Teve medo de ser o Preto Prata, teve medo de ser um capoeira e morrer a tiros, como um elefante enlouquecido abatido pelos tratadores. Teve medo de ser livre, de lutar para ser livre. Mas tinha medo do conformismo, da falta de aventuras, das moças apertadas em corpetes, tão retas e tão rígidas. Mas haveria de se acostumar a isso, e dizer adeus a malemolência das mulatas e das moças trigueiras que trabalhavam no bairro. Tinha medo. Muito medo, e para onde se virava via ainda mais medo, e mais coisas a que temer.

Ainda sonharia muitas noites com a queda do Gigante da Gamboa. Algumas vezes via-se tombando em seu lugar, e nessas noites justamente o sonho era bom.

Como entender? Não sabia  e nem queria entender. Que a patente de militar lhe desse outra vida, como a vida do seu pai. Isto foi o que o medo lhe ensinou.

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s