A potência – história presente

Meu sogro jura de pés juntos que seu ódio aos judeus é justificado, que os sábios do Sião se reuniram de fato para combinar a dominação mundial, que tudo o que ele viveu é a mais pura verdade histórica, literalmente e que ele entende a política segundo esse testemunho.

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Ele não está tão errado assim. Ele entende o mundo de acordo com a história que ele viveu, com o tempo presente, com a mais perfeita parcialidade que resulta do sujeito e do objeto compartilharem a mesma temporalidade. O compartilhamento temporal sugere também espacial, e assim a parcialidade se aprofunda. Meu sogro é o exemplo de uma pessoa que sofre com todos os problemas da história do tempo presente, principalmente a falta de consciência de sua limitação.

Dona Marlene está no extremo oposto do mesmo espectro temporal. Ela viu a realidade política e econômica a partir de uma perspectiva social diferente, com outras experiências, outro nível educacional, e tem uma percepção e interpretação dos fatos totalmente diversa da esposada pelo meu sogro.

Testemunhos se agrupam, se organizam, mas é possível identificar isso mais facilmente agora, com a retrospectiva permitida pelos anos entre o observador e o objeto. Entender isso à época é mais complicado.

De certo modo, imagino que seja necessário um exercício dissociativo tremendo para se destacar do seu ambiente, de si mesmo – se considerarmos viver um ato político que nos imbrica a realidade presente inexoravelmente – para poder exercer uma análise desapaixonada do período temporal no qual se está mergulhado. O que eu leio sobre o tema, até o momento, me parece muito vago, um monte de divagações sobre a teoria do estudo da história, e exercícios de legitimação do que se pensa, mais do que hipóteses verdadeiramente falseáveis.

Ok, Popper de esquina aqui foi pouco, mas nem esse pouco é possível ver honestamente.

Não atribuo essa fraqueza a uma academia enviesada, nem a falta de empenho dos pesquisadores, mas á própria natureza humana: a vida inteira nós gastamos tentando afirmar uma persona. É irresistível colocar uma chancela acadêmica sob essa busca essencialmente egoísta. A farsa é legítima. Acreditar na farsa é tolice.

O problema está, no meu caso, quando o sujeito compreende a farsa e a identifica em si mesmo. O que sobra do tempo presente é algo amorfo, que somente se realizará no futuro, em perspectiva. O presente se torna de fato, um devir, e os outros passam a existir sob um olhar igualmente frio de vivissecção, onde não há espaço para a paixão: ela só adquire sentido completo depois. Não uma relatividade absoluta, mas multiplicidade de foco, possibilidades de abordagem, sobre o que se realiza como fato. O presente é o espaço de ebulição, de potência e de liberdade, de vontades e desejos atuando, de farsa.

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Não é mais confortável para o sujeito viver um presente que se legitima no imediato, pelo grupo, pela sua perspectiva única, pelo seu caminhar monolítico, ideológico, cultural, ou o que quer que seja, mas que prescinda de se admitir falso?

Meu filho me pede indicações bibliográficas, inquire minha visão de mundo e tenho me sentido acanhada, constrangida e mesmo temerosa de conversar com ele sobre minha forma de ver e viver o presente. Acho que para ele talvez seja melhor chegar as suas próprias conclusões, ou que ele talvez sofra menos não pensando como eu. Por outro lado, a liberdade de ver o presente como devir, e mais ainda, sentir essa liberdade tem algo de catártico que não gostaria de privá-lo. Eu não posso fazer com que ele sinta nada, ele precisará experimentar a própria epifania.

Mas viver sem lugar não é fácil. Não. Não é. Melhor ter convicções, testemunhos, perspectivas imutáveis.

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