Vida Medicada

bipolar-disorder-abstractPacientes de doenças crônicas levam uma vida assim… Dependente de medicamentos. Muitos precisam dos remédios para a manutenção da vida. Acho até que esses casos são de fácil raciocínio: ou você toma, ou você morre, ou até pode sofrer conseqüências graves, sentidas naquele momento. Claro que não é algo tão direto assim; ninguém aceita uma doença de maneira tão pronta.

São diabéticos que burlam dietas, hipertensos que detestam os medicamentos, somente para citar as condições mais comuns nos dias de hoje.

Remédios não são exatamente a melhor coisa do mundo. Costumamos imaginar coisas que nos livram da doença considerada como existência de uma condição de anormalidade física, biológica, ou mental, mas este mental também ligado a um estado biológico. O remédio vem como solução, como algo que nos traz conforto, e não é assim que funciona. Pergunte a um paciente de AIDS como é tomar os “coquetéis” e seus inúmeros efeitos colaterais!

Se temos uma doença que vemos como potencialmente letal, ora bolas, muitas pessoas aceitam a pílula amarga, a sopa de jiló sem tempero diária.

cyanide-bipolar

Mas e se a doença que temos não nos dá essa sensação de risco iminente? E se não percebemos uma relação de perigo, e se alguns dos sintomas da nossa doença podem ser durante parte do tempo agradáveis, ainda que na prática possam evoluir prejudicialmente?

Algumas doenças psiquiátricas nos colocam nesta situação de impaciência diante da perspectiva de sermos perpetuamente pacientes. Precisamos recriar uma vida, uma Vida Medicada, sem que sejamos considerados pelas pessoas em geral como doentes de verdade, pois ouvimos muito que transtornos de humor, por exemplo, são falta de vergonha na cara, de Jesus, ou de um tanque cheio de roupas sujas para lavar.

Quando o depressivo ou o bipolar começa um tratamento, e isso eu vejo não apenas pela minha experiência, mas pelos depoimentos de dezenas de outras pessoas, a questão principal enfrentada é a aceitação da própria doença. Essas coisas são realmente doenças? Pior, são loucura? Ir a psiquiatra é coisa de maluco? Todo o estigma que a doença psiquiátrica tem na sociedade, e uso este termo deliberadamente para não usar o termo “loucura”, aflora dentro de nós. Precisamos enfrentar estes preconceitos dentro de nós e depois nos outros para começar a aceitar que precisamos nos tratar, e isto é uma batalha diária.

ursobipolar

Outras lutas são com a forma como estas doenças são encaradas no mundo social, isto é, como nós, pacientes psiquiátricos, somos aceitos pela sociedade. Ao usarmos certas receitas controladas, somos tachados de “malucos”, como sinônimos de alienados, de incapazes de determinar a própria vontade, de exercer os direitos de cidadania, enfim, nos colocamos na berlinda para ataques vis. Quantas pessoas, principalmente mulheres manifestam ansiedade perante a possibilidade de perda de guarda dos filhos por ser paciente psiquiátrica, seja bipolar ou depressiva em tratamento?

Finalmente, e isto eu acredito ser parte do jogo de preconceitos, de culpas, de incertezas: como levar uma Vida Medicada? Uma vida controlada como a que outros pacientes de doenças crônicas vivem, aceitando as limitações do tratamento?

Se eu pudesse comprar a normalidade, a aceitação social, meus direitos de cidadã, todo o pacote de libertação e de “saúde” com uma receita médica, eu faria um altar para o meu psiquiatra, trataria todos os pesquisadores da indústria farmacêutica de “meu bem”, diria que esses laboratórios todos são a manifestação da divindade e mantenedores da democracia no mundo, qualquer coisa! Mas essa não é a verdade.

Os remédios trazem um alívio de sintomas ao preço de outros efeitos colaterais que precisam ser ajustados na rotina diária. Ninguém simplesmente fica como se estivesse curado. O bipolar continua ciclando, e o deprimido continua tendo os seus períodos bem mais complicados, porém de forma não acentuada, mais gerenciável. Esse alívio pode ser o bastante para que possamos tomar posse de nossa vida, e no custo-benefício, chavão pseudo-pragmático destes tempos, é o que precisamos ver se vale a pena.

O quê afinal queremos comprar com o tratamento?

Não posso me afirmar uma pessoa perfeitamente equilibrada. Cometo deslizes; tenho momentos de profunda tristeza, e outros de muita euforia, no geral eu tendo à distimia. Mas tenho levado a vida mais do que deixado a vida levar, e isso é algo bom. É um progresso.

Preciso afirmar para mim mesma a necessidade do tratamento. A maioria dos pacientes não sabem, mas transtornos de humor tem índice de mortalidade alta, e a bipolaridade então é bem assassina, e eu sei onde esses transtornos podem nos levar, pois eu já vi de perto o abismo, e já perdi pessoas de maneira trágica para estas doenças. Não posso me enganar pelas fases de alegria esfuziante, de atividade a mil, sei que ela precede a queda. E sei que doenças psiquiátricas matam, pela mão dos próprios pacientes, o que é muito, mas muito triste e insidioso, para dizer o mínimo.

Portanto precisamos, nós os pacientes, levar uma vida monótona: ciclos de sono-vigília regulares, nem que seja a base de indutores de sono que não causam dependência ou ressaca; não beber, não fumar, não usar drogas de espécie alguma; tomar os medicamentos nas doses corretas todos os dias; ir à terapia nas datas marcadas; encarar a realidade de que a doença não tem cura e assim, é para a vida toda; fazer exames físicos periódicos para verificar comprometimento de órgãos e outras funções decorrente do uso prolongado de certos medicamentos; atividade física aeróbica moderada (eu ainda não me conformei com isso!), não apenas pela questão cardio-vascular, mas para ajudar a controlar o peso, que vive sendo alterado pelos medicamentos, e para ajudar nos nossos probleminhas de sono. Enfim, uma Vida Medicada. Não é uma vida saudável. Não penso numa vida voltada para a obtenção de mais saúde. Mas na manutenção do período sem crise e na redução do impacto dos medicamentos no corpo, por isso, uma vida medicada simplesmente.

medicamentos

Às vezes eu me rebelo, como um cachorro que começa a correr pela casa sem razão nenhuma, de um lado para o outro, derrubando tudo. Mas depois eu sinto o baque e volto para a rotina. Percebo que na prática, a opção é melhor pelo maior equilíbrio, pela posse de mim mesma.

Acontece, não é?

De certa forma a aderência a esta rotina mais rígida nos torna pessoas mais sérias, e mais confiáveis do que aquelas ditas normais! A previsibilidade da Vida Medicada dá esta maior segurança. Na verdade o resto do mundo é tão imprevisível quanto nós em tratamento, talvez até mais! Não temos a noção disso, pois passamos boa parte do nosso tempo pensando na nossa conduta, e nos estranhando, e pensando que a motivação das outras pessoas deve ser diferente.

Ora, todos têm problemas, têm encucações, momentos de “loucura”, fazem escolhas estúpidas na vida que depois procuram de todas as maneiras justificar racionalmente para não dar o braço-a-torcer! A vida é assim, é algo complicado, nem tanto, nem tão pouco, mas não vem com manual do usuário!

Assim, enfrentando o preconceito interno e externo, sabendo das implicações sociais inevitáveis da condição de paciente psiquiátrica, acho que a melhor opção foi pela Vida Medicada.

Mas opções… cada um tem a sua.

 

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s