Transparente

Seus olhos tem um castanho amarelado, não são cor de mel, mas esmaecido, como se o tempo tivesse lhe tirado o brilho. É curioso como ele raramente me olha nos olhos. Talvez nunca o tenha feito.  Se os olhos são portas para a alma, a dele está completamente fechada para mim.

 

Não tem movimentos precisos, nem lânguidos, mas sim sôfregos, ansiosos. Desde que o conheço tem fome e sede, e quando se sente saciado relaxa; somente então se permite conversar. Não fosse o talento natural para o sexo oral e o pau grande e grosso, eu talvez não tivesse ficado com ele tanto tempo.

Sei que sou a melhor trepada da vida dele, sei que ele nunca gozou com ninguém como goza comigo, sei que ele gosta de me dar prazer por nunca ter imaginado antes ser tão simples, tão direto e tão fácil ter e dar prazer, e se lamenta ser descoberto isso apenas aos cinquenta anos. 

Ele é agradável no sentido de pertencer ao mesmo campo de trabalho que eu, e conseguimos trocar curiosidades profissionais e rir um pouco. Mas sensualidade? Mesmo a mentira de um afeto? Não, nada disso.

O que gosto nele é a elegância casual, a maneira absolutamente polida de não expressar sentimentos, como se toda relação pudesse ser no fundo um contrato de benefícios mútuos. Um mundo com ordem, um mundo racional e perfeito dentro de suas peculiaridades. Ele se fez entender por meio do sexo, se isso é possível. Se faz entender num beijo suave, que dialoga perfeitamente com a minha boca e com meu sexo, com meus seios… mas que se recusa a ter dentes.

Tem um cheiro um tanto amargo, todo dele, junto ao sexo, e a pele é apenas sabão e desodorante, sem nenhuma grande sofisticação, embora escrupulosamente limpo. Acho que nunca o vi com barba por fazer, sem o cabelo aparado. Entretanto passa uma casualidade perfeita. Euro chic sem querer ser.

Seus pelos são louros e lisos, ficando brancos, mas não macios. Ele me enche a boca como me força o sexo, e já me causou sangramento. Por alguma razão, esse causar sangramento que tanto o assustou, me deu mais tesão. Na minha mente alucinada de gozo, dor e prazer se misturavam, e eu fantasiava uma penetração suprema. Não que ele seja longo demais, são posições combinadas a força que machucam, mas para uma louca como eu, tudo é alimento para mais loucura.

Mas nunca consegui gostar dele. Com todo gozo, todo tesão, toda língua, tudo que ainda me faz me deitar com ele, eu não tenho por ele afeto. Ele me é a epítome do sexo sem amor. Muito raramente a sombra de uma preocupação passa por aquele rosto. Um carinho, uma ou duas frases que tentam fazer sentido de quem eu sou, frustração com certas coisas que fiz comigo mesma, e ele para a meio caminho, e eu me recolho na minha concha.

Nós nos encontramos apenas no sexo. É nosso único diálogo sincero, completo e real.

Já pedi que ele me desse um tapa, que me tomasse a força, que me segurasse pelo pescoço enquanto me comia… não conseguiu. Olhou para mim desarmado, desconcertado, subitamente vazio de agência. O falo naquele momento era meu. Eu o deitei e lhe massageei a próstata enquanto lhe masturbava, retirando lentamente o esperma, num gozo lento e profundo.

Ele não tem mais próstata também. Acho que enfim tomei-lhe tudo.

Ainda assim nós continuamos saindo. Língua e pau sempre de prontidão para mim, que nem sempre estou com vontade dele. Como pode? É a flor que come a mosca? Quem é a flor e quem é a mosca? É o prazer nesse caso mera função física?

Que eu, bandeirante, desbrave essa fronteira.

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