No ar

Sinto meus pés fora do chão. Há um nada sob eles que me agonia. Busco pernas nas quais entrelaçar as minhas e acho mãos autoritárias que as abrem, enquanto quadris pesados se encaixam nos meus.

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A penetração é dura e forte. Ele é grande, mais largo. Não sei se estou excitada, há mais confusão do que qualquer outra coisa. Sinto-o raspando minha carne quando entra em mim, e só então a umidade vem, abundante. A brincadeira acabou.

Só posso me mover se for para acalentá-lo dentro de mim.

Alto, forte… a amizade se perdeu na sedução, virou silêncio e febre. Enquanto enterra o rosto no meu pescoço e nos meus cabelos, ele segura minhas mãos. Meu prazer é secundário, a saciedade é imperativa.

Conforme o suor escorre dos nossos corpos, ele se ergue levemente e me puxa para si, quase de joelhos, e então nos movemos, em forte sincronia.

Seus olhos ficam nublados, perdidos no meu corpo. Solta uma das mãos dos meus quadris e acaricia meus seios, suavemente. Em algum lugar acho forças para me perguntar como consegue fazer isso, pois já não penso mais direito, sou só a junção de nossos corpos. O bater fundo dele dentro de mim, a enorme dilatação que me impõe, a contração que faço com força para senti-lo ainda mais e que percebo arrancar tremores dele.

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Eu gozo. Tonta, ferozmente, como se ele fosse algum animal ou um deus a me estocar a alma. Balbucio que não pare, e ele não pára. Com mais força me prega na cama, e só então se esvai em mim. Gozo de novo, junto. Ele treme suavemente, a musculatura parece cheia de espasmos pequenos, os braços cedem ao peso do corpo, e a ejaculação vem em jatos a me lavar por dentro. Posso sentir em cada canto de mim. Eu não existo. Só existe o gozo.

O homem forte se transforma de novo no moço que conheço há tantos anos, o amante no amigo, o olhar nublado de prazer em algo triste, um tanto rancoroso, como seu eu tivesse retirado algo dele de íntimo, raro. Traindo pesar se retira de mim e deita ao meu lado fitando o teto. O suor dele exala meu perfume, e ele percebe. Leva o braço ao rosto e observa isso. Se tranca no banheiro e toma um banho completo.

Mesmo tentando brincar há um distanciamento entre nós que não havia antes. Não consigo entender os homens. Ordenar que tirasse a roupa foi tão fácil, e tirar foi mais ainda. Mal percebi que havia ali um afeto diferente, algo que eu atropelava nas minhas vontades intempestivas, no chamar a qualquer hora do dia ou na noite, e ele sempre presente. Mais jovem do que eu, eu simplesmente passei por cima, como se houvesse apenas desejo, ereção fosse alguma coisa automática, amizade, descomplicada. E talvez fosse, se não fosse eu.

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Cobrei um preço alto?

Ao voltar ele resmunga e tenta se vestir. De joelhos na beira da cama eu brinco, meu jeitão de sempre. “Qual o problema?” Eu espero realmente uma resposta?

Com um resquício de paciência ele se aproxima e me beija, e caímos na cama de novo. Mesma fome, mas uma nova tristeza, uma nova delicadeza.

Não me importo. Como diz a molecada na rua: perdeu, perdeu. Então que se dane. Sexo sem amor.

Ele me ergue da felação que me parecia deliciosamente eterna. “Você parece um pouco enlouquecida”. Nem sei se estava, a verdade é que gosto e sempre gostei disso. Não me é protocolar, não é para bancar a gostosa ou para o prazer dele, talvez seja até uma coisa bem egoísta minha.  Não há entrega, mas sim tomar dele o quanto posso, como um eco da primeira vez em que fiz isso, da primeira vez em que me permiti experimentar, explorar, saber como meus lábios adormecem e depois ficam extremamente sensíveis, formigando a qualquer toque, a língua ágil, ansiosa por um paladar específico que o gozo dele por si atrapalha.

Uma urgência de derrame e ele me coloca de bruços, um travesseiro sob meu ventre, e eu entendo o que quer. Reluto a princípio. É grande e se sou apertada na frente, por trás sou ainda mais. Lambidas, dedos, carícias, lubrificação. A penetração é por demais dolorosa. Gemo de dor e ele de prazer. Tentamos de novo. Agora quem quer sou eu, mas terá de gozar rápido. É tão delicado, que a dor apesar de imensa, é prazeirosa, o movimento sutil, suave, que permite o gozo, em nada me fere. Não quero que me masturbe, quero o gozo de dentro, da posse completa. Se ergue indo mais fundo e nem por isso é bruto de maneira nenhuma. Desliza a mão do meu traseiro ao meu pescoço, me afundando mais na cama, e mais empinada fico… Como ser tão autoritário sem dar uma ordem se quer? Sem nada pedir, sendo suave o tempo inteiro? Mera sintonia de vontades?

O que parece pouco dura horas de exploração mútua, horas de conhecer as sutilezas do prazer dele. O meu ainda oculto. O meu ainda um bocado protegido.

Sexo, sexo, sexo.

O mundo não gira em torno de sexo, mas boa parte do que percebemos do outro está justamente no que damos de nós mesmos no momento da bendita (ou maldita) conjunção carnal. Frivolidade, entrega completa, proteção ou controle, não importa: está tudo ali em carne pulsante, demandando um mínimo de reverência.

Eu não me importei. Não. Nem um pouco. Nenhum sentimento.

 

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