Niemeyer… não é tudo isso!

Não é novidade alguma para quem me conhece que eu não gosto do trabalho de Oscar Niemeyer.  Considero a maior parte de seus trabalhos apenas monumentos, não locais destinados ao uso humano. Acho Brasília hostil ao indivíduo, de uma beleza fria que grita um ideal coletivista onde o homem como sujeito não tem lugar senão como espectador de um protagonista imenso chamado estado.

Considerando o Palácio Gustavo Capanema, essa não deve ser uma falha apenas de Niemeyer, pois o edifício é de Le Corbusier e Lúcio Costa e ele não é exatamente o que se pode chamar de funcional.

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A Casa das Canoas, assim como a casa de praia do Darcy Ribeiro são bonitas, cada uma a sua maneira, entretanto elas não são locais fáceis de se habitar. Quando você visita a Casa das Canoas, não se imagina deitado numa cama assistindo TV com o amorzinho, comendo pipocas, em paz. Ao fim e ao cabo, uma casa é uma casa, não interessa se foi projetada pelo mais criativo arquiteto do mundo, ou pelo seu zé das couves da favela não sei das quantas: o prazer estético não pode e nem deve ser dissociado da funcionalidade que permite que o sujeito se aproprie do espaço, defina-o e redefina-o.

Uma das coisas que mais me incomoda é a dificuldade que se tem de criticar Niemeyer. Credito essa dificuldade a algumas questões brasileiras e ideológicas.  O Velho sempre militou à esquerda, comunista histórico, sem se furtar a apoiar regimes ditatoriais e sanguinários, desde que se declarassem a esquerda do espectro político. Isso lhe garantiu um lugar privilegiado em determinados círculos que foram gradativamente ditando o que ouvir, ver, escrever e considerar genial nos círculos acadêmicos. Essa militância ideológica não deixa de se manifestar na sua arquitetura: seus edifícios monumentais e hostis ao indivíduo tem exatamente o fito de não permitir que o segundo se integre como protagonista do primeiro.

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Uma das características mais marcantes da Praça dos Três Poderes é seu tamanho, brancura e aridez. Ela não é feita para que as pessoas se reúnam e apreciem os edifícios, não tem o objetivo de fazer com que o cidadão se sinta em casa, ou numa ágora, ela irradia calor escorchante, o ficar em pé, a luz que cega, a poeira ou a chuva inclemente. Ali os poderes não pertencem ao povo, mas são percebidos até fisicamente como seus opressores. Menciono a Praça para tirar “a culpa” de Lúcio Costa, apesar dos dois partilharem as mesmas convicções.

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Outro projeto monstruoso foi o dos Cieps, no Rio de Janeiro. As escolas feitas em módulos de concreto eram fáceis de construir, mas em nenhum momento parecem ter considerado que pessoas de verdade teriam de trabalhar e estudar naqueles locais. A imagem idílica de complexos escolares para crianças em tempo integral sofreu não apenas com a falta de verba e de continuidade, mas com os próprios edifícios:  absurdamente quentes no verão, frios no inverno, sem tratamento acústico de sorte que lecionar em uma sala era invadir a sala ao lado, acessibilidade ruim… O ideal de espaços se perpassando, igualitário, de visão ampla, e ao mesmo tempo contendo e controlando a vida do sujeito trabalhador e estudante, se sobrepondo a coisa mais essencial: esses sujeitos tem necessidades humanas!

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Mas quantos intelectuais de esquerda de fato tinham suas crianças em Cieps?

Outra questão é a necessidade que o brasileiro tem de cultuar algum outro brasileiro que “seja reconhecido internacionalmente”. Se o escrete é a pátria de chuteiras, Niemeyer é a pátria em concreto armado! E Santos Dumont é a pátria com asas! Enfim, ao esconjurarmos o vira-latismo, acabamos por chafurdar mais ainda nele.

Não conseguimos ter critérios minimamente objetivos para avaliar nada; tudo é uma narrativa direcionada a garantir a afirmação de uma neurose coletiva. Somos o país do futuro? Os explorados e as vítimas que tem superioridade moral diante dos grandes vilões e também justificativa e absolvição imediata por todos os seus pecados? Somos os gênios não reconhecidos, os talentos roubados? Não digo que não exista injustiça no mundo, porém, uma visão tão maniqueística proporciona passe livre para a mediocridade.

Detesto o trabalho do Niemeyer sim, acho chato, feio, nada funcional, árido, desumano, de feições autoritárias e nacional-socialistas.  Pronto!

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