Lori Lamby

Um caderno rosa… e Hilda Hilst declara que assim dizia adeus à literatura séria para tentar vender mais, e como discorre o pós-fácio do livro, nem assim ela conseguiu fazer uma literatura ruim. Pelo contrário. Algo me diz que ela falou essa bobagem de brincadeira.

Sátira à relação editor-autor, à indústria livreira, à mídia ou seja lá o que for, o livro é bom, como literatura e como obra erótica.

Sátira como crítica, por favor! Nada de comédia!lori

Ela já tinha uma obra intensa, onde a carnalidade tinha um papel forte, mesmo que não exatamente erótico, mas a partir desse marco o erotismo despontou forte e majestoso. Qual o problema com o erotismo?

A pequena Lori, ao esfregar uma nota de dinheiro em sua “xixiquinha” tenta retribuir ao dinheiro o que ele lhe dá: prazer! amor! satisfação! estima!

Ler o livro nos traz sensações conflitantes pois ali não está uma adolescente, mas uma criança, uma pré Lolita. No livro de Nabokov acompanhamos uma relação que redunda numa agressão a jovem Lolita que a destrói, a corrompe, tanto quanto destroça Humbert Humbert. Mas com Lori Lamby é diferente, pois parece a concretização dos desejos mais ardentes de qualquer pedófilo: uma menina de oito anos que se permite tocar, desejar e coopera com os atos libidinosos de adultos do sexo masculino, aparentemente com o consentimento dos pais.

Há tanto revolta quanto cumplicidade e espanto na leitura pois a pequena Lori parece efetivamente ser ativa participante naquilo tudo, e sua descoberta do prazer, permeada por um mundo infantil, o olhar para os pais – agudo mas não exatamente entendendo o que se passa – os homens, as pessoas, tende a nos fazer cúmplices expectantes, e até curiosamente excitados diante das experiências descritas com simplicidade pela menina, as reações do seu mais ardoroso cliente, Tio Abel, e culpados por isso.

O final é surpreendente e nos faz rir do que pensamos, refletir sobre o que fomos levados a sentir, sobre a personagem principal, sobre os temas mais “sérios” propostos pela autora, e também sobre esse efeito erótico, o que encontrou de eco na gente, seja de repulsa, seja de atração, cumplicidade, incapacidade de deixar de olhar, e no entanto… o que seria verdade?

Não conto o final, mas…

A tetralogia pornográfica de Hilda Hilst acabou por dar a ela uma fama de maldita, de escritora erótica, que ela não necessariamente era. Ter uma escrita carnal, física e exuberante não é ser nem erótica e nem pornográfica. O que ela fez foi dar visibilidade a autora num mercado previsível, onde o que vende é sexo e caratê, e ela fala disso sem o menor pudor, com um tom agridoce de quem gostaria que algo fosse diferente, mas, como não é… ora, bolas, que seja! É possível ser série e densa em pequenas e adoráveis bandalheiras, e O Caderno Rosa de Lori Lamby é uma dessas brincadeiras que valem a pena ser lidas, nem que seja no cantinho, rindo escondido.

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