Belas declarações de amor obssessivo

claudeesmerelda1Ah, a inconteste incapacidade de fazer personagens felizes. Maldito Victor Hugo. Nunca seja um personagem da tribo do bem nas mãos dele: tu vai se ferrar. Há sempre algo a mostrar.

Boas notícias não vendem jornal e os ricos também choram… algo assim. Quando terminei de ler Os Miseráveis eu precisava seriamente de terapia.

Em Notre Dame de Paris, alias O Corcunda de Notre Dame, Padre Claude se declara assim para a jovem cigana:

” Suplico-te – bradou – se tens entranhas, não me repilas! Oh! amo-te, sou um miserável! Perdão! se vens do inferno para lá vou contigo. Tudo fiz para isso. O inferno onde tu estiveres é o meu paraíso; a tua vista é mais encantadora que de Deus! Oh! dize! tu nada queres então comigo? No dia em que uma mulher repelisse um semelhante amor julgaria que as montanhas se abalariam! Oh! Se tu quisesses! Oh!como poderíamos ser felizes! Fugiríamos – eu far-te-ia fugir – iríamos para alguma parte, procuraríamos lugar sobre a terra onde haja mais sol, mais árvores, mais céu azul. Amar-nos-íamos, verteríamos as nossas duas almas uma na outra e teríamos uma sede inextinguível de nós mesmos que saciaríamos em comum e incessantemente na taça de um amor inextinguível”

A menina de quinze anos está apaixonada por um cavalheiro, que dela se aproveita e, ao final casa-se com uma moça burguesa, abandonando a ciganinha a própria sorte – ou azar.

A moça fica horrorizada com a declaração do padre, que apesar dos trinta anos, parece prematuramente envelhecido e não belo como o jovem cavalheiro. A declaração de amor intensa, talvez soasse diferente na boca de um homem bonito, não?

esmerelda

É fácil dizer que derreter-me-ia com tal declaração. É mentira. Não há mulher que não queira o príncipe bonitão dos desenhos da Disney. Até porque os desenhos sempre suavizam os traços terríveis do caráter dos personagens literários.

Não adianta nada ser amado por quem não se ama. Ou adianta?

Mas por que diabos me lembrei do velho Victor? Porque sempre que penso numa declaração de amor eu lembro dessa, uma coisa irretocável e trágica, e sim, irretocável, perfeita, não obstante a natureza obsessiva da paixão que expressa.

Que mulher poderia ouvi-la sem perder a respiração por alguns segundos? O cinema foi cruel com o personagem do padre e com essa fala, enfatizando o quanto a beleza enviesa a forma como aceitamos o outro. Nem sei se essa crueldade é intencional ou simplesmente a comprovação da teoria: a beleza é elixir e veneno.

O mestre francês merece ser lido e relido várias vezes durante a vida porque ele fez uma obra que expressou lindamente as nuances da sua visão do humano. O olhar dele envelhece com a gente em camadas de tristeza, e depois se refaz em reflexão.

Numa nota menos depressiva, me animo com a esperança de que D´us é mais bem sucedido do que Victor Hugo com seus personagens, pois lhes dá chances, os refaz,e os faz renascer.

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