Mishigne…

Dona L é uma pessoa e tanto. Não há dúvidas. É olhar para ela e saber. Meu analista diz que leu ou ouviu uma vez que sempre há uma Dona L em todas as anedotas judaicas engraçadas. E a contar pela que eu conheço essa é uma mishigne memorável.

Chamar alguém de maluco numa sala de espera de um consultório de um médico psiquiatra não é exatamente a coisa mais delicada do mundo, mas para pessoas como eu e Dona L é algo que arranca uma troca de olhares significativa e sonoras gargalhadas.
sandalia-de-oncinha-gladiadora
A bem da verdade eu adoro pessoas como ela, que demonstram no olhar todas as suas emoções, pessoas explosivas tanto no afeto quanto nos rompantes de raiva mas que até nestes parecem ser extremamente afetuosas de um jeito estranho.

Eu amo ouvir pessoas que viveram suas vidas de forma intensa e riem disso. Não que não tenham sofrido pois cada um sabe de suas cicatrizes, do quanto elas doeram do quanto elas fizeram sofrer, ou mesmo não tem tanta noção do sofrimento que causaram, mas estão aí dando a cara a tapa pela vida.

Me falou do amor intenso pelos pais, e em especial pela mãe, por quem nutria verdadeira adoração, e quando falou que por volta dos vinte anos, ainda em 1970 ela se separou do primeiro marido e o escândalo que isso foi (ainda mais na conservadora comunidade judaica, e só sabe como a comunidade é conservadora quem já a freqüentou), eu de cara lasquei: sua mãe já tinha falecido, né? E ela deu uma risadinha meio culpada… “é, né?” Afinal, ela não causaria esse sofrimento para a mãe adorada; mas já que a mãe não estava mais lá para ver… Dona L colocou o bloco na rua!!! E resolveu ter um monte de namorados e de amantes!!! Virou a puta, como a rotularam e que se danassem todos, foi viver a vida dela!!!!  Sofreu e fez muito homem sofrer!!!

Mas por volta dos trinta conheceu o homem com quem casou, teve filhos e com quem ficou até ele falecer, um longo casamento com um homem maravilhoso que só não dava o céu a ela pois era impossível, mas o resto… e olha que ela “é foda”, nas palavras dela mesma!

Critica o povo riquíssimo com quem convive por não aceitar que ela freqüente de vez em quando lugares humildes para onde é convidada devido à sua grave síndrome de “boa gente”, pois como diz, boa gente tem em todo lugar, e para “ser franca, pessoas de origem humilde muitas vezes são mais sábias e verdadeiras do que esse povo que fica lá em cima…sabem acolher”, e vejo que é natural que pense assim pois ela trabalhou muito e aprecia pessoas que trabalham, dá valor ao trabalho e não tem medo de gente, pelo contrário, gosta muito de gente.

Não sei se ela percebe como deve ser difícil ser filho ou filha dela. Personalidades exuberantes nem sempre são boas mães : são assertivas demais, e ela tem aquela coisa yiddish calorosa, emotiva, chorosa, festiva, que gosta de rir de si mesmo, de suas peculiaridades e lhe chama a rir com eles e eu me pergunto se os jovens yiddins tem essa mesma verve…

Com tudo o que ela fez e aprontou fica um pouco a sensação de dizer: taí, eu vivi, fiz o melhor que pude com erros e acertos e ainda estou por aqui, agora crianças é com vocês, se virem, façam o que quizerem da vida de vocês, cheguem na minha idade e digam que viveram de maneira intensa, extraordinária, non-challant…

Ainda que isso não tenha sido tão verdade assim, a sombra projetada conforme chegamos ao fim do dia fica maior, e o desafio para quem olha se torna enorme.

Entre pais e filhos adultos a luta é por carinho? Acho que sim. No meu caso deixou de ser. Passou a ser por humanidade já que carinho eu não tive e não admiro meus pais como pessoas que tiveram algum tipo de sucesso ou conquista que eu gostaria de ter na vida: não os vejo como modelos. Minha luta é pelo reconhecimento humano. Pois o resto é simplesmente imutável, está dado, não tem como cobrar mais culpas, reparações, absolutamente nada. É viver e ir em frente.

Entretanto as pessoas que tenho como tais modelos de vida, mulheres intensas, que eu olho com grande admiração e às vezes com carinho, eu por alguma razão consegui tirar a sombra, e nesse processo humanizei. Será que é por não serem minha mãe? Talvez.

A propósito, Dona L me mostrou que sandálias de oncinha podem ser super elegantes… e aderi geral!!!! Me amarrei!!!! Eu já queria cabelos vermelhos, e ela me deu a maior força!!! Dona L é o máximo!!!! Toda anedota judaica tem uma Dona L, agora me lembro que meu analista disse citando o Nilton Bonder, e essa foi a minha anedota goy citando uma mishigne memorável e assumidézima!!!

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